PUBLICIDADE
Topo

Lei em Campo

Copa do Mundo: antes de a bola rolar, mulheres driblaram preconceito e leis

Andrei Kampff

04/06/2019 05h10

Chegou a Copa do Mundo de Futebol Feminino! 

As emissoras de massa dando uma rara atenção à modalidade, notícias circulando, interesse compartilhado. E isso se explica. 

A Fifa divulgou em 2016 uma política de incentivo à modalidade, que ganharia corpo justamente neste ano.

 A ideia é ter 60 milhões de mulheres praticando o esporte até 2026. A Conmebol e a CBF seguiram na onda e criaram regras que obrigam grandes clubes a investir em times femininos. Portanto, 2019 será mesmo o ano da virada para o esporte?

Não tenho tanta certeza. E explico. As mulheres sempre precisaram driblar preconceitos e, também, leis para simplesmente poder jogar futebol. Isso, a prática do futebol foi proibida para mulheres, no Brasil e na Inglaterra. 

Antes da questão jurídica, torna-se necessária uma contextualização história. Primeiro vamos viajar até a Europa para depois falarmos do Brasil. 

A Football Association foi fundada em 1863, estabelecendo as regras do esporte. Apesar de a entidade ter sido criada pela elite inglesa, o futebol logo se tornou popular, sendo cooptado pelos operários, que viam no esporte acessível uma alternativa de lazer para duras jornadas de trabalho e salários baixíssimos. 

Popular e com vários clubes espalhados pelo país, muitos deles formados em fábricas, como o Manchester United, o futebol inglês se organizou e passou a realizar um campeonato nacional. Depois de 25 anos de criação, ele teve que ser interrompido por conta do início da primeira guerra mundial, em 1914. 

Com a guerra, muitos jogadores, inclusive profissionais, passaram a ser convocados para servir ao exército. 

Sem oferta tradicional de mão de obra, as fábricas passaram a contratar mulheres. De forma massiva elas tomaram os lugares dos homens nos campos de produção e nos gramados de futebol. E deu supercerto. O time da fábrica Dick Kerr and Co. construiu uma história incomparável. 

Com um time talentoso e levantando recursos para diminuir o flagelo de famílias destroçadas pela guerra, elas tornaram o futebol feminino um espetáculo. Em 26 de dezembro de 1920, o Dick Kerr and Co. jogou contra o St. Helens Ladies no estádio do Everton para um público de 53 mil pessoas. Catorze mil pessoas ficaram do lado de fora. 

O advogado Igor Serrano trouxe, em artigo para o Lei em Campo, números que mostram a grandeza dessa equipe. Até encerrar as atividades, em 1965, foram 828 partidas, com 758 vitórias, 46 empates e 34 derrotas. 

Mas o sucesso das mulheres incomodou a já poderosa Football Association. 

O sucesso do futebol feminino poderia obrigar a entidade a ter que organizar um campeonato nacional, que dividiria atenção com o futebol masculino. 

Como o fim da Primeira Guerra Mundial, os homens voltaram para as fábricas e tiraram as mulheres também dos gramados. A FA foi dura e proibiu a prática para as mulheres sob a alegação de que ela "seria inadequada para o sexo feminino". 

Somente cinco décadas depois, em 1971, a federação revogou essa proibição absurda, mesmo ano em que a UEFA recomendou às federações que organizassem o futebol feminino em seus países. 

No Brasil, mulheres também foram proibidas por lei de jogar futebol. 

A prática é muito antiga. Vem do início do século passado. Nas praias, nas ruas, em campos de várzea, mulheres também corriam atrás da bola pelo prazer do jogo. 

Mas esse hábito incomodou o Estado Novo de Getúlio Vargas. O Decreto-lei 3.199, de 1941, criou o Conselho Nacional de desportes, e nele estava o art. 54:

"Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país". 

E, vai piorar. Em 1965 o regime militar tornou a proibição expressa no CND, por meio da deliberação número 7: 

"Não é permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo, halterofilismo e beisebol". As mulheres no futebol estavam ainda mais relegadas à ilegalidade 

Mesmo com a proibição, as mulheres seguiam jogando bola em jogos clandestinos. 

Com o enfraquecimento da ditadura, o aumento das liberdades individuais, vários times começam a surgir. 

Em 1979, já na abertura, a deliberação número 7 foi revogada e surgiram as primeiras ligas não clandestinas de futebol feminino. Mesmo assim, após 40 anos, a realidade é ainda muito difícil. 

Segundo reportagem do UOL no fim do ano passado, a média salarial é de cerca de 1.500 reais. Mas o problema maior é que nem sequer o pagamento é feito de maneira correta, e as atletas, a maioria, nem sequer têm carteira assinada. 

Muita coisa precisa mudar. 

Com a determinação da FIFA, as regras criadas pela Conmebol e CBF e o apoio de mídias importantes de conteúdo esportivo, o interesse aumenta. O esporte cresce também como negócio. 

A tendência é que o mercado se profissionalize, pague mais e pague corretamente. A vigilância será muito maior. 

A história mostra que esse é um caminho possível, principalmente quando se trata de gente talentosa, que já driblou preconceitos e leis. 

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.