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A culpa não é delas. O que precisa mudar é a cabeça dos gestores do futebol

Andrei Kampff

2025-06-20T19:21:12

25/06/2019 21h12

Já disse aqui que seria um erro achar que a derrota para a França e a consequente eliminação no mundial acaba com a ideia de uma transformação no futebol feminino. Acho mesmo que pode ter sido apenas um capítulo de uma nova era para a modalidade.

A resposta está no negócio. Afinal, nunca faltou paixão, mas sim investimento, coragem.

Depois que a FIFA decidiu impulsionar a modalidade e várias entidades esportivas entraram na onda, a Copa do Mundo chegou. E a resposta das arquibancadas e do mercado superou as expectativas. Sim, o público consome também o futebol feminino. As empresas investem e têm, sim, resultados.

Não é preciso viver apenas da paixão e do talento, aguentando direitos desrespeitados, salários muito baixos e pouco incentivo.

Alguns exemplos na Europa já mostravam que o futebol feminino pode caminhar sozinho, como uma receita interessante para os clubes. Na Espanha, um protocolo garante direitos às atletas na gravidez e na maternidade.

A Copa do Mundo da França é mais um exemplo.

Recorde de audiência. No mundo e no Brasil.

Se as meninas caíram, não foi por falta de empenho, nem de talento. Mas pode ter sido por falta de organização, de planejamento. Algo que não existe quando não se acredita em um produto.

Sim, no capitalismo onipotente e onipresente o futebol é entretenimento e negócio, e o futebol feminino precisa ser um produto atrativo para que as atletas não vivam mais com as dificuldades que até hoje encontram no dia a dia.

Com o que a França mostrou, os gestores do futebol brasileiro podem ter aprendido. Nilo Patussi, advogado especializado em gestão esportiva e colunista do Lei em Campo, mostra caminhos interessantes.

 


 

A culpa não é delas

Com a seleção feminina do Brasil fora da Copa do Mundo deste ano, após a derrota para a França, na prorrogação, por 2 x 1, a pergunta que não quer calar: e agora, o que vai acontecer com o futebol feminino no Brasil?

Em um ano em que já esperávamos que a modalidade feminina no futebol fosse importantíssima não só para o Brasil, mas também para o mundo, a realidade foi muito além do esperado. 

No jogo em que o Brasil disse adeus ao mundial, a televisão aberta atingiu 32 pontos de audiência. Um recorde, no Brasil, para a modalidade. Uma marca significativa também para o futebol. Para se ter uma ideia, a audiência do principal campeonato nacional em 2019 está entre 20 e 25 pontos. Esses números mostram que o futebol feminino tem público interessado, e não é pouco.

O campeonato que está acontecendo na França tem servido não apenas para mostrar que o futebol jogado pelas mulheres vem crescendo, e com qualidade, mas também para mostrar que é um mercado gigante e ainda bem pouco explorado. A Copa do Mundo da França mostrou em números o seu gigantismo nas redes sócias também. Foram mais de 2 milhões de novos seguidores na página do Facebook da competição, além das mais de 6 milhões de curtidas nas publicações.

Com ocupação dos estádios em aproximadamente 70% e audiência televisiva ainda maior, com as redes sociais fervendo, como não explorar comercialmente esse campo e fazer com que ele cresça ainda mais?

Mas já tem gente que viu potencial nisso.

Uma jogada de marketing fez com que um batom virasse assunto no mundo todo. Se poderia ou não ter feito, será discutido mais tarde, mas não podemos negar que a visibilidade esperada foi alcançada.

Existem marcas interessadas e muito potencial para os patrocinadores chegarem e fazerem com o futebol das mulheres a potência que deve ser. Mas parece que o esporte das meninas/mulheres não cresce e não remunera tanto quanto deveria não por causa da falta de público ou por falta de patrocinadores (dinheiro) para investir, mas sim pela gestão de quem está à frente dessa administração.

Será que, se houvesse no futebol feminino um mecanismo que incentivasse os clubes formadores, não seria um recurso importante para o esporte crescer? Hoje na legislação esportiva não há regulamentação sobre o quanto se deve incentivar ou de onde podem vir esses recursos. A lei diz: ter um time de futebol feminino.

Sem dúvida, a gestão esportiva vem se profissionalizando, a passos lentos, mas vem acontecendo. Quem tiver visão e aproveitar esse momento especial que as nossas meninas conseguiram alcançar com quase nenhum apoio sairá na frente e conseguirá, em um curto espaço de tempo, colher muito com isso.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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