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Contra preconceito, árbitro precisa agir

Andrei Kampff

28/08/2019 12h02

O STF, em decisão histórica, equiparou para fins legais o crime de homofobia ao de racismo. É natural o STJD seguir essa orientação, e o movimento esportivo também passar a punir.

Mas como em toda lei, a principal preocupação não pode ser a punitiva, e sim a de provocar uma mudança de comportamento.

A arbitragem já recebeu orientação de como agir em manifestações preconceituosas. E, no último domingo, vimos pela primeira vez um árbitro parar um jogo por conta de manifestações homofóbicas.

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Entenda o procedimento com a especialista Renata Ruel, comentarista dos canais ESPN e colunista do Lei em Campo.

 


 

Partida é paralisada no Rio. Comum, talvez. Normal, jamais

Na partida entre Vasco e São Paulo, no último dia 25, no Rio de Janeiro, no estádio de São Januário, pela primeira vez um árbitro, nesse caso Anderson Daronco, parou o jogo em função de gritos homofóbicos.

Como mostra o relato do árbitro na súmula da partida, aos 17 minutos do segundo tempo a torcida do Vasco começou a cantar "time de viado". Quem assistia ao vivo percebeu que o árbitro paralisou o jogo, informou o delegado da partida, os capitães e até mesmo o treinador Wanderley Luxemburgo sobre a necessidade de os cânticos cessarem.

Quem acompanha o futebol sabe que cantos assim são comuns em alguns estádios e partidas, não somente no Brasil. São formas de provocar o adversário. Alguns podem até mesmo cantar por entrar na onda e no clima da torcida, não por serem homofóbicos, mas hoje isso não é mais permitido, é considerado crime.

Ser comum não pode ser confundindo com ser algo normal. Nenhum tipo de preconceito é normal, seja ele qual for. A CBF lançou na semana passada a campanha de respeito aos árbitros, mas o respeito deve ser mútuo, ou seja, árbitros, jogadores, adversários, torcedores, dirigentes, jornalistas, independentemente de classe social, gênero, religião, idade, estatura, cor dos olhos, pessoas com algum tipo de deficiência. Respeitar sempre as diferenças, sejam elas quais forem, é relevante para todo tipo de convívio.

Respeito é a palavra-chave. Além de normal, ela deve se tornar comum.

O Vasco pode ser punido pela atitude de sua torcida e até perder 3 pontos no campeonato. Veja o relato do árbitro na súmula da partida.

Quantas vezes em estádio se escutam crianças proferindo ofensas? Muitas podem nem sequer saber o que significa o que estão a gritar, mas o futuro melhor precisa começar desde cedo, e o futebol é uma excelente ferramenta social para a conscientização de mudanças que se fazem necessárias.

Que isso sirva de aprendizado para todos, para um futebol e uma sociedade melhor. O que antes poderia ser uma "brincadeira" hoje é crime.

E ao árbitro Anderson Daronco, no dia em que estreou o escudo com a campanha da CBF "RESPEITO: ESSA É A REGRA DO JOGO", fica os parabéns pela grande atitude. Realmente fez jus ao que carregava no peito.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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