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A desorganização administrativa é punida com exclusão... na Inglaterra

Andrei Kampff

29/08/2019 14h00

Não existe pó de pirlimpimpim. Nem no futebol.

Em um momento em que o Brasil discute a possibilidade de se dar vantagens fiscais a clubes que deixarem de ser associações esportivas para se transformarem em empresa, é importante lembrar disso.

Existem clubes que são associações e estão dando exemplo de boa gestão, como Palmeiras, Flamengo, Grêmio, Bahia… e clubes-empresa que estão afundando instituições tradicionais. No Brasil e no mundo.

É importante entender, e vou repetir aqui: independentemente da escolha do modelo de gestão do clube, é indispensável que a administração seja tocada por profissionais, e que seja transparente, ética e protegida por mecanismos de integridade.

Veja também: 

O Luiz GG Costa, advogado em Londres e colunista do Lei em Campo, conta o que aconteceu com o Bury, um clube centenário inglês. Um patrimônio do futebol de lá.

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 Finanças e futebol: rota de colisão?   

Com a expulsão do Bury Football Club, clube da terceira divisão do futebol inglês, das competições da English Football League (EFL), na útima terça-feira, um problema sério dentro do esporte volta a ser manchete nos jornais da Inglaterra: o gerenciamento do negócio do futebol.

O clube, situado em Bury (na Grande Manchester), fundado em 1885, perdeu lugar nas competições da EFL por conta das suas condições financeiras precárias. A EFL havia dado um prazo (já prorrogado) até as 17h de terça-feira para o clube finalizar sua venda para uma empresa que havia demonstrado interesse na transação. Porém, como o negócio não deu certo, às 23h05 da última terça-feira, a EFL notificou formalmente o Bury da perda da sua associação à liga. A terceira divisão (chamada de League One) continuará com apenas 23 agremiações até o final desta temporada, com apenas três equipes a serem rebaixadas, para que a próxima temporada seja equalizada.

Esta foi a primeira vez que um clube perde a sua associação com a EFL desde 1992. E foi a primeira vez que um clube deixa a terceira divisão por esse motivo. Em abril, o Bury comemorava o acesso à terceira divisão. Agora, resta observarmos como vai ficar a sua situação (estádio, jogadores, funcionários e torcedores). Lembramos que o Bolton Wanderers, também na terceira divisão, tem prazo de 14 dias para concretizar a sua venda para uma empresa interessada, sob pena de também perder o direito de associação à EFL.

Esse tipo de situação não acontece por acaso, ou do dia para a noite. Salários atrasados, inúmeros empréstimos, credores (inclusive o Fisco) ameaçando impetrar ações etc. Esse tipo de situação não acontece apenas na Inglaterra. No mundo inteiro encontramos esse problema. Supersalários, invariavelmente incompatíveis com as possibilidades financeiras dos clubes, cujas receitas são muito aquém em relação aos gastos. Assim, temos o interesse da promoção do esporte, com o desenvolvimento de atletas e o trabalho social que o esporte proporciona, extremamente comprometidos. Ou seja, não atingimos o fim social. E, ainda, temos o propósito comercial (posto que os clubes na Inglaterra, em sua maioria, são empresas) não alcançado. E todos sabemos o que acontece quando uma empresa gasta mais do que recebe, não é mesmo?

Apesar da estrutura empresarial, o negócio do futebol é bem diferente de uma empresa comercial. A compra de clubes por indivíduos ou empresas que não têm experiência em gerenciar clubes de futebol também contribui para essa equação desastrosa. A falta de planejamento de longo prazo, compliance e avaliação realista das aspirações de um clube deveriam sempre ser a prioridade de seus gestores. Quem disse que todo clube está preparado para a divisão acima? Às vezes, não há como financiar tal ambição.

E assim, temos mais um capítulo triste da história do futebol. Pelo menos a partir da temporada que vem (2020/2021), o Bury poderá requerer sua reinserção nos quadros da EFL. Porém, em uma das divisões inferiores da pirâmide do futebol inglês.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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