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Saiba como anda a conversa do esporte eletrônico com o movimento olímpico

Andrei Kampff

07/09/2019 07h00

Pense numa discussão sem fim: esporte eletrônico é esporte?

Claro que não, afinal ele não exige esforço físico. Mas e o xadrez? E o futebol de mesa?

Essa é uma discussão que ainda divide opiniões, e a imensa maioria não conseguiu  formar uma convicção.

O fato é que existe um movimento que quer levar o esporte eletrônico para a cadeia olímpica.

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Se entende. O interesse do público pelo principal produto esportivo do Comitê, as Olimpíadas, vem diminuindo ano a ano. Os últimos Jogos Olímpicos de Inverno foram os de menor audiência da história.

Depois de várias conversas, reuniões e reflexões, a conclusão: é preciso atrair os jovens.

 

A cadeia associativa do movimento olímpico é completamente diferente da organização dos esportes eletrônicos.

Pra começar, estes últimos têm donos.

É, a conversa terá que ser longa, todos terão que ceder.

Entenda o que tem de novidade nessa conversa com Nicholas Bocchi, advogado e colunista do Lei em Campo.


A Federação Alemã de Esportes Olímpicos e o esporte eletrônico

 

É sempre importante lembrar que o eSport é um gênero com diversas modalidades, e estas são representadas por empresas, federações ou associações; porém, quando uma delas recebe um revés, a comunidade inteira é atingida.

O assunto de hoje é recorrente aqui no eSports Legal. Serão estudados o Olimpismo e os mais recentes anúncios da DOSB (Federação Alemã de Esportes Olímpicos) de que não considera que eSport seja um esporte.

A decisão não é nova, é do final de 2018, mas a discussão se arrasta até hoje, e a repercussão internacional só atingiu a mídia brasileira neste mês.

 

O pedido

A Germane Sport Federation (ESBD), por meio de seu presidente, Hans Jangow, requereu a entrada na DOSB.

Observar que houve um pedido de entrada é importante para enxergar que não se trata de uma briga para que o eSport seja considerado esporte, e sim para que uma federação aceite outra, o que poderá fazer usando os argumentos que quiser.

Ainda assim, é um passo importante para o reconhecimento do eSport na Alemanha. E o reconhecimento é importante para que sejam criadas políticas públicas e o mercado cresça.

O pedido foi negado, pois, de acordo com os critérios da DOSB, os eSports não são esportes.

 

A negativa

A justificativa para a negativa da DOSB foca na demanda física feita por um esporte. Estudo publicado pela German Press Agency mostra que os esportes já reconhecidos requerem "certo nível de esforço tradicionalmente físico".

Como resposta, o presidente da ESBD disse que o estudo foi feito apenas para apoiar velhos preconceitos da entidade olímpica, até porque "dardos, esportes motorizados e até futebol de mesa são classificados como esportes, e estes não demandam esforço físico, e sim movimentos precisos, assim como o eSport".

 

Os efeitos da classificação de uma atividade como esporte no Brasil

A frase "a atividade X é classificada como esporte" deve sempre ser seguida de "por tal entidade".

Hoje é possível observar que diversas entidades querem dizer o que é esporte, mas cada uma utiliza um critério, e cada uma gerará um efeito para essa classificação.

No Brasil é bem possível que uma entidade esportiva como o COI (Comitê Olímpico Internacional) ou o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) diga que eSport não seja esporte, mas os efeitos práticos disso não ultrapassariam a impossibilidade de eSport serem parte de eventos.

No Brasil o Estado não está vinculado às determinações do COI ou COB, e mesmo que eles digam que o esporte eletrônico não é esporte, o Estado ainda pode tratá-lo dessa forma, criando leis e incentivos para a atividade.

Porém, na Alemanha é diferente. Hans Jangow, presidente da ESBD, explica que a classificação como esporte pela DOBS daria ao mercado de eSports diversas vantagens tributárias e proteções legais, enxergando como secundária a possível participação de atletas de eSports em eventos olímpicos.

 

Não é o fim do caminho

Apesar de a DOSB parecer ser irredutível quanto à matéria, discute-se a possibilidade de conceder o status de benefício público ao eSport. Isso não faria ele ser considerado esporte, mas aplicarias mesmas vantagens tributarias e legais.

 

Repercussão

Os principais clubes que têm sedes na Alemanha, como o BIG Clan e a Schalke 04, se pronunciaram.

O CEO da BIG Clan foi incisivo:

"A decisão da alemã DOSB de dividir a comunidade dos eSports e descreditar nosso esporte é resultado de uma liderança que provou ser ignorante em todos os sentidos quanto a nossa paixão.

Felizmente, não são eles que decidem sobre o futuro do esporte eletrônico na Alemanha. Nós temos que nos posicionar, nos unir e mostrar nossa força contra essa gente obstinada, que quer dividir nossa comunidade e descreditar nosso esporte."

Logo depois o perfil oficial da Big Clan publicou um vídeo emocionante, refletindo as palavras de seu CEO:

https://twitter.com/BIGCLANgg/status/1057714898824613888

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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