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FIFA quer mulheres nas arquibancadas no próximo jogo do Irã. É um avanço

Andrei Kampff

19/09/2019 15h08

A FIFA se manifestou e disse que o Irã precisa permitir que mulheres frequentem estádios de futebol. A entidade se posiciona de maneira aberta contra uma proibição que tem gerado sérios problemas.

A situação voltou a chocar e provocar debate no mundo depois que a torcedora Sahar Khodayari morreu neste mês. Ela colocou fogo no próprio corpo enquanto aguardava julgamento por tentar assistir a uma partida.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, disse à inglesa BBC que espera ver uma mudança já no jogo pelas eliminatórias da Copa do Mundo com o Camboja no próximo mês.

"Nossa posição é firme e clara. As mulheres precisam entrar nos estádios de futebol do Irã." O presidente disse também que "agora é o momento de mudar as coisas, e a Fifa espera desenvolvimentos positivos a partir do próximo jogo em casa do Irã, em outubro".

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A verdade é: finalmente a FIFA abandonou um silêncio absurdo e decidiu se manifestar. Não é de agora, mas faz muito pouco tempo. Em junho, Infantino já tinha mandado uma carta à Federação Iraniana de Futebol (FFIRI) pedindo que se entregue à FIFA um cronograma que resulte na permissão para mulheres assistirem às partidas das eliminatórias para a próxima Copa, que começam em 5 de setembro.

É sempre bom destacar que os artigos 3 e 4 do estatuto da FIFA apontam o compromisso da entidade com os direitos humanos e a luta contra discriminação de qualquer tipo – explicitando a questão de gênero –, pela igualdade e neutralidade. Mas nem sempre a entidade olha para o próprio estatuto. 

No Irã mulheres não podem frequentar estádio em jogos entre homens

No Irã estrangeiras têm acesso limitado aos jogos. Já as iranianas estão proibidas de frequentar as arquibancadas desde a Revolução Islâmica de 1979, que transformou o país em uma República baseada nos preceitos religiosos do islamismo e mudou radicalmente a estrutura social do país.

Apesar de o país contar com uma Constituição, o comportamento das pessoas é ditado  pela sharia, o conjunto de normas do Alcorão. As ideias islâmicas acabam retirando direitos das mulheres, como a ida aos estádios. Sob o ponto de vista dessa corrente do islã, o ambiente do futebol causa muita exposição às mulheres, e seria um território "pecaminoso" para elas.

Mas a pressão por mudanças é grande. As mulheres não aceitam passivas essa restrição. Mesmo proibidas, algumas torcedoras vão aos estádios disfarçadas. Outras participam ativamente de movimentos no exterior pedindo a permissão de mulheres nos estádios, como o coletivo "Open Stadiums", criado em 2005.

A situação das mulheres nos estádios parecia caminhar para uma flexibilização quando, no ano passado, um grupo de mais de mil torcedoras pôde assistir à final da Liga dos Campeões da Ásia, entre Persépolis e Kashima Antlers. Infantino estava presente no Estádio Azadi nesse jogo. Mas depois da final, as torcedoras não tiveram mais acesso a jogos.

Todas as partes precisam conversar

A verdade é que o futebol também é uma paixão no Irã. Ele é muito praticado pelas mulheres, mas questões religiosas também sofrem resistência do próprio movimento esportivo. 

Em 2011 a seleção de futebol feminino do Irã foi eliminada das eliminatórias para os Jogos Olímpicos de Londres 2012 porque as atletas se recusaram a tirar o hijab na partida contra a Jordânia. A decisão da FIFA repercutiu, e várias entidades muçulmanas, além de outras de direitos humanos, como também atletas, se uniram em uma campanha chamada "Let us play".

Com o auxílio da tecnologia, os véus foram adaptados à prática esportiva, diminuindo a força dos argumentos daqueles que defendiam que ele era perigoso e ameaçava a saúde dos atletas. A FIFA cedeu e, em 2014, anunciou que permitiria o hijab em competições nacionais.

Ou seja, existe sempre a possibilidade do diálogo. Com bom senso e flexibilidade, é possível conciliar questões religiosas com o esporte, encontrando boas soluções para a sociedade. E esse diálogo só se torna possível com a mobilização de todos, das mulheres do Irã, dos movimentos sociais e das entidades esportivas. Que bom que a FIFA, finalmente, está ajudando nesse diálogo.

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Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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