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Empresa contra manipulação no esporte é acusada de ceder dados para a máfia

Andrei Kampff

04/11/2019 13h40

Xinhua/Luciana Granovsky/TELAM

A Sportradar, empresa suíça de monitoramento de jogos, líder mundial em prevenção, detecção e inteligência no combate à manipulação de resultados no futebol está sendo acusada por associação à 'Ndrangheta, associação mafiosa que se formou na região da Calábria, na Itália. A empresa presta serviços para as principais entidades do futebol mundial, incluindo FIFA, Uefa, Federação Italiana e até a Conmebol, CBF e Federação Paulista de Futebol, além de ligas como a NBA.

De acordo com o jornal Business Insider, da Itália, a revelação do esquema foi feita por Fabio Lanzafame. Ele explicou que, por meio dos sites fictícios criados, trabalhou em paralelo com sites de renome internacional, graças às informações que ele regularmente comprava de uma subsidiária da "Sportradar", chamada "Betradar", que serve para vender dados "ao vivo". Os dados eram comprados frequentemente, e a "Betradar" estava ciente do fato de as transações terem origem ilegal, uma vez que os pagamentos eram feitos em sacolas de dinheiro, e não por meio de transferências bancárias.

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Ironicamente, a Sportradar vendia seus serviços para o combate à manipulação de jogos e já monitorava os padrões de apostas do Campeonato Brasileiro das Séries A e B, além da Copa do Brasil, por meio da parceria que tinha com as federações internacionais, quando, em 2017, firmou acordo diretamente com a Confederação Brasileira de Futebol. Com essa parceria, passou a monitorar também as Séries C e D do Brasileirão. A Sportradar também firmou acordo com a Conmebol, em janeiro de 2017. A empresa teve papel importante para desbaratinar uma quadrilha que operava no interior de São Paulo.

"A notícia é devastadora, mas sem comprovação ainda. A Sportradar é uma grande empresa de monitoramento. Ela tem contrato com muitas entidades no Brasil e no mundo e foi determinante para descoberta de muitos casos de manipulação, o mais recente o do Batatais, por exemplo. Não há por que desconfiar da empresa, a não ser que haja um inquérito instaurado e indiciamentos, o que não parece o caso, ainda. Tem contrato conosco na FPF foi quem identificou todos os casos de manipulação por apostas por aqui. Vamos sugerir pela nossa Comissão de Integridade que solicite esclarecimentos", falou ao Lei em Campo Paulo Schmitt, coordenador da Comissão de Integridade da Federação Paulista de Futebol.

"O mercado de apostas é crescente, e temos que garantir que nossos campeonatos não sejam atingidos por manobras ilegais. Buscamos um parceiro líder no mercado mundial, com trabalho reconhecido e que já tenha amplo conhecimento da estrutura do futebol brasileiro, para complementar o trabalho nas séries que ainda não estavam cobertas", destacou na ocasião o então presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, em texto publicado no site da entidade, comunicando o acordo com a empresa suíça. A CBF ainda mantém contrato com a Sportradar.

Fábio teria envolvimento com a máfia italiana e seria um dos presos da operação "Galassia", que em novembro de 2018 prendeu de 33 pessoas na Calábria, 13 na Sicília e 22 na Apúlia, acusadas de envolvimento com o mercado ilegal de apostas on-line na Itália, usando empresas que operavam na Albânia, Malta e Romênia. A estimativa é que o grupo movimentava um negócio de mais de 4,8 bilhões de euros.

Após as denúncias na Itália, a Sportradar emitiu nota oficial refutando "fortemente as alegações feitas no artigo publicado pela Business Insider Italia em 30.10.19 e considera muitas dessas alegações e declarações feitas incorretas, falsas e difamatórias".

Nota completa da Sportradar:

O Sportradar refuta fortemente as alegações feitas no artigo publicado pela Business Insider Italia em 30.10.19 e considera muitas dessas alegações e declarações feitas incorretas, falsas e difamatórias. A Sportradar age e sempre agiu, em total conformidade com os regulamentos locais e internacionais, requisitos legais e órgãos reguladores, e nunca esteve envolvido em nenhuma suposta atividade ilegal. O Sportradar fornece serviços a centenas de autoridades esportivas na Itália e no mundo todo, e apoia e trabalha ativamente junto com as autoridades policiais e policiais locais e internacionais na luta contra a corrupção e o crime. Nosso trabalho descobriu algumas das práticas ilícitas de maior destaque destinadas a manipular competições esportivas na Itália, Europa e no mundo. O artigo em questão é totalmente impreciso e deturpa nosso trabalho na Itália e no mundo. O Sportradar rejeita completamente seu conteúdo e as alegações feitas e está considerando tomar as medidas legais apropriadas para proteger seus negócios e reputação. Embora não faremos mais comentários sobre esse assunto no momento, levamos essas alegações muito a sério e elas serão adequadamente abordadas.

Por Ivana Negrão e Thiago Braga

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Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff