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Novos atos de racismo expõem fragilidade no combate ao problema na Europa

Andrei Kampff

18/11/2019 04h00

Menos de 20 dias depois que a Uefa puniu a federação da Bulgária em 75 mil euros por conta das ofensas da torcida búlgara em direção ao atacante inglês Raheem Sterling, a entidade tem de enfrentar novo caso de racismo nas eliminatórias para a Eurocopa. Durante o jogo entre Romênia e Suécia, o árbitro paralisou a partida e os alto-falantes do estádio anunciaram que o motivo da parada era o abuso racial sofrido pelo atacante sueco Alexander Isak.

"Ouvi vários gritos racistas nas arquibancadas e perguntei ao árbitro se ele ouviu o que estava acontecendo. Ele não ouviu nada. Poucos minutos depois, ele parou o jogo e perguntou. Tivemos uma pequena discussão, a partida continuou e eu estou bem com isso e estou feliz por termos vencido. Obviamente dói, é uma pena, mas estávamos preparados para isso. Eu não deixo coisas assim me afetarem dessa maneira. É melhor ignorá-lo. Sempre haverá idiotas por perto, é melhor não dar a eles a atenção que estão procurando", afirmou o sueco, que tem ascendência da Eritreia, pequeno país do nordeste da África.

O maior problema para quem analisa os casos de racismo recai sobre a punição – ou a falta dela – dada a quem pratica este tipo de ofensa.

Em julho deste ano, a Fifa anunciou um Novo Código Disciplinar, cujo texto dá ênfase ao combate ao racismo. Mas não é o que tem acontecido.

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"O que eu acho que deveria ser feito em termos esportivos e jurídicos para combater o racismo é a interrupção da partida. Ausência de prática esportiva ao menor caso de racismo. Acabar com a partida. E que os atletas tenham voz dentro da comunidade esportiva", defende o advogado Vinícius Calixto, especialista em direitos humanos.

O protocolo da Uefa determina que o árbitro pare a partida e instrua as autoridades do estádio pedindo para que os torcedores parem; se este anúncio não funcionar, faça outro anúncio, suspenda a partida e envie os jogadores para os vestiários por um período específico; após a consulta, encerre a partida se o comportamento discriminatório ainda não cessar ou ocorrer novamente.

"As sanções da Uefa estão entre as mais duras do esporte para os clubes e federações cujos torcedores sejam racistas em nossas partidas. A Uefa é o único órgão do futebol que bane jogadores por dez partidas por comportamentos racistas. Associações de futebol não conseguem resolver o problema sozinhas. Os governos também precisam fazer mais nesse sentido", disse recentemente o presidente da Uefa, Aleksander Ceferin.

"O pensamento das autoridades de quem manda no futebol é que a questão racial não é algo importante e que os jogadores negros precisam entender e jogar. Se quiserem jogar, joguem; se não quiserem, deixem de jogar", Marcelo Carvalho, criador do site Observatório da Discriminação Racial no futebol que monitora os casos de racismo no esporte mais popular do mundo.

Não foi só no âmbito de seleções que a discriminação apareceu neste final de semana. Na Holanda, no empate em 3 a 3 entre Den Bosch e Excelsior. Assim como na Romênia, o jogo chegou a ser interrompido por causa de ofensas preconceituosas contra o atacante Ahmad Mendes Moreira, do Excelsior.

"As sanções atuais, por mais difíceis que a Uefa pense que possam ser, claramente não estão funcionando e deixam as vítimas com pouca fé em sua capacidade de evitar comportamentos abusivos. Consideramos que todo o processo disciplinar da Uefa em resposta à discriminação racial deve ser revisto e exortamos a explicar o processo de tomada de decisão por trás de suas sanções por incidentes de discriminação", afirmou a Kick It Out, entidade britânica de combate ao racismo e que luta pela igualdade e inclusão no esporte.

Pesquisa recente feita pela empresa SWG mostrou que mais da metade dos italianos disseram que atos racistas eram às vezes ou sempre "justificáveis".

"Os dirigentes esportivos estão preocupados é em manterem seus cargos políticos e continuarem decidindo o destino de milhões proporcionados pelo futebol, em muitas vezes, como os escândalos da Fifa, para os próprios bolsos. Racismo é algo apenas para eles aparecerem quando lhes interessa, como por exemplo em um jogo para homenagear [o ex-presidente da África do Sul, Nelson] Mandela. Nem os casos de Copa do Mundo revelados pela Fare, que é patrocinada pela Fifa, são levados a sério", disparou Marcel Diego Tonini, doutor em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP).

Por Thiago Braga

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Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff