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Na Espanha, Rayo Vallecano é punido por atos racistas da torcida. Entenda

Andrei Kampff

27/12/2019 12h10

No momento em que o racismo é amplamente discutido no futebol mundial, sem punição efetiva pelas entidades esportivas, a Espanha anunciou, nesta sexta-feira (27), sanções contra o Rayo Vallecano, time da segunda divisão no país. O episódio não se refere a discriminação por cor de pele. Parte da torcida, no estádio de Vallecas, gritou que Roman Zozulya era nazista, durante todo o primeiro tempo do jogo entre Rayo Vallecano e Albacete, válido pela vigésima rodada da competição.

"Zozula, você é um nazista!", "puto nazista!", "fora de Vallecas!", eram as frases entoadas pelos torcedores. O juiz paralisou a partida em dois momentos durante o primeiro tempo, enquanto os autofalantes pediam para que os insultos parassem. Quando os atletas foram para o vestiário, no intervalo, decidiram não retornar mais. O jogo, realizado no último dia 15, foi encerrado com o placar de 0 x 0.

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Agora, o Comitê de Competição da Federação Espanhola determinou que o jogo seja retomado e o segundo tempo terá que ser disputado com portões fechados. Data e horário ainda serão definidos pelos dois clubes e por La Liga. Além disso, o Rayo Vallecano terá que pagar multa de 18 mil euros. A sentença inclui também a realização de mais dois jogos com fechamento parcial do estádio, mais especificamente do setor onde ocorreram as manifestações. O Fundo Sul é a área onde ficam os "Bukaneros", grupo contrário a Zozulya.

O clube foi enquadrado no artigo 69, parágrafo 1.B, do Código Disciplinar Federal, que qualifica como ato ou conduta passível de punição "a exibição, nas instalações esportivas, de estandartes, símbolos, emblemas ou lendas que incitam ou incentivam comportamentos violentos, racistas, xenófobos e intolerantes, ou constituem desprezo manifesto a qualquer um dos envolvidos no evento".

Na ata do julgamento, o árbitro explicou que a decisão de suspender a partida se baseou pelas faixas e músicas produzidas por um setor da torcida local contra o jogador do Albacete, Roman Zozulya, e porque o coordenador de segurança informou que "as forças de segurança não poderiam garantir a integridade física dos participantes do jogo" naquele momento.

Depois do jogo, Roma Zozulya concedeu entrevista coletiva em Albacete. Ele se descreveu como um patriota e deu sua versão das fotos usadas por seus críticos para associá-lo a movimentos de ideologia nazista ou de ultra-direita. "Tudo o que eles dizem sobre mim não é verdade. Sou apenas um jogador de futebol e patriota do meu país. Sou um defensor do meu país. Sou apolítico e contrário a todas as ideologias".

Histórico

Em 2017, Roman Zozulya foi contratado pelo Rayo Vallecano. De imediato, a torcida viu com rejeição o anúncio, pois ele é, assumidamente, ligado a movimentos de ultradireita em seu país. O jogador ucraniano, inclusive, apoiou o chamado 'Exército Popular', que é um grupo formado por neonazistas. O Rayo Vallecano (e também seus torcedores) sempre foi ligado a movimentos sociais e de inclusão, sendo a antítese do que defende o jogador ucraniano. Depois de muita reclamação por parte dos torcedores, o clube voltou atrás e desistiu da negociação.

 

Por Ivana Negrão

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Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff