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Jogadora do São Paulo alega depressão, e processa clube. Entenda o caso

Andrei Kampff

17/01/2020 17h53

O ano da equipe feminina de futebol do São Paulo começou no dia 6 de janeiro, com a apresentação de oito reforços. Mas sem a renovação da atacante da Seleção Brasileira Cristiane Rozeira, que se transferiu para o Santos. Outra atacante do elenco da temporada passada também decidiu não permanecer no tricolor paulista em 2020, e está processando o clube na Justiça do Trabalho.

"Eu pensei muito antes de tomar essa decisão. Foi bem difícil, mas em razão de tudo que vi outras meninas passarem dentro do São Paulo, e que passei também, decidi processar o clube e o treinador", declara a jogadora que não quer revelar sua identidade por medo de retaliação.

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"Entramos com o processo, porque ela ficou depressiva. Tem laudo médico comprovando o diagnóstico e determinando licença médica de 30 dias. Há ainda a perícia do INSS após um mês de afastamento, confirmando que o ambiente de trabalho a deixou doente", informa Higor Maffei Bellini, advogado da jogadora.

A atleta morava no alojamento fornecido pelo São Paulo ao time feminino, embaixo da arquibancada do estádio do Morumbi. "Então, ela saía do treino, mas não da pressão do trabalho. Além disso, o técnico, que também está sendo processado, a tratava com rigor excessivo", acrescentou Higor Maffei Bellini.

Depressão em atletas é mais comum do que se imagina. "É um ambiente muito competitivo e por essa razão, naturalmente hostil. Na grande maioria dos casos, sem estrutura física ou pessoal adequado. Poucos clubes contam com acompanhamento psicológico para seus atletas, até por falta de verba mesmo", pondera Felipe Mourão, advogado especialista em Direito Desportivo e Negócios no Esporte.

No Regulamento de Licença da CBF não há qualquer menção ao profissional de psicologia nas disposições referentes a capital humano, e nenhum tópico que dispõe sobre algum tipo de acompanhamento psicológico como um dos requisitos para obtenção da licença. O Regulamento também é vago quanto à estrutura do futebol feminino, sugerindo que seja "da melhor forma que puder" para o desenvolvimento do esporte. Quando exemplifica, cita apenas "campo para treinamento e disputa das partidas oficiais".

"A estrutura lá era inadequada. Não tínhamos academia, porque era do sócio. Muitas vezes, treinávamos em rampa ou em escada por não ter lugar. Também treinávamos com nossa roupa, porque não tinha uniforme de treino e muito menos roupa de frio. Não chegava pra gente", revela a ex-atacante do São Paulo.

Toda equipe da Série A do Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino deve ter uma equipe feminina para que possa disputar a competição da CBF. "A iniciativa é louvável, porém, sem oferecer aos clubes os meios para isso, será inócua e até perigosa. A grande maioria vai apenas realizar uma parceria com uma equipe feminina já existente, e vincular sua marca. Sem, de fato, investir ou mesmo fomentar, seja financeiramente ou com material humano, aquela equipe feminina, e muito menos a base feminina", avalia Felipe Mourão.

O São Paulo havia encerrado as atividades do futebol feminino em 2015. Dois anos mais tarde, retomou a modalidade apenas com a base. E, em 2019, montou o time profissional. Todas as jogadoras têm contrato e carteira assinada. Sobre a atleta que teve o vínculo encerrado em dezembro passado e agora processa o clube, o São Paulo informou, por meio da assessoria de imprensa, que "como o caso corre em segredo de justiça, o clube só vai se pronunciar nos autos". A primeira audiência do processo está marcada para o dia 11 de fevereiro.

"A princípio, não é matéria de competência da Justiça Desportiva, que lida apenas com questões referentes à disciplina e organização das competições. Ou seja, fatos relacionados com a disputa dos torneios e não de natureza trabalhista", esclarece Felipe Mourão.

Em 2019, a equipe feminina de futebol do São Paulo foi campeã brasileira da Série A2 e terminou com o vice-campeonato paulista, quando perdeu para o Corinthians, após dois jogos com recorde de público, tanto no Morumbi como na Arena, em Itaquera. A estreia na Série A1 do Campeonato Brasileiro, em 2020, está marcada para o dia 9 de fevereiro, contra o Cruzeiro.

Por Ivana Negrão

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Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff