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Protocolo da Conmebol para segurança foi seguido no Chile?

Andrei Kampff

07/02/2020 14h08

Por Luiz Marcondes, colunista do Lei em Campo

É fogo, Conmebol!

"Um fogo devora um outro fogo. Uma dor de angústia cura-se com outra."¹

A Conmebol prometeu melhorar a organização das principais competições sul-americanas para não ocorrerem mais casos como a batalha de Buenos Aires em 2018 na final entre Boca e River, dentre outros, reformulando os regulamentos dos principais torneios e os regulamentos disciplinares com medidas mais rígidas. Mas o jogo que terminou empatado na última terça entre a Universidade do Chile e o Internacional de Porto Alegre em Santiago, jogo válido pela Libertadores 2020, mostra que a promessa está em combustão.

O estádio Nacional, palco da partida, estava ardendo em chamas. Além do confronto com policiais, da invasão do campo, e de arremessar cadeiras para o gramado, a torcida incendiou a arquibancada, literalmente, e com a bola rolando no campo. Foram vários atos de violência dentro e fora da praça esportiva. O jogo chegou a ser paralisado pelo árbitro, mas seguiu mesmo sem ter cessado a violência.

O regulamento intitulado "Manual de Clubes da Libertadores 2020" versa sobre interrupções e até cancelamento da partida por desordem:

5.1.12 INTERRUPÇÃO, SUSPENSÃO, ABANDONO E CANCELAMENTO DA PARTIDA

A Conmebol prioriza e trabalha para que todas as partidas de todas as suas competições transcorram dentro dos limites de segurança e normalidade, a partir da abertura dos portões até o término da partida e posterior fechamento do estádio. O Delegado da Partida trabalha com esse objetivo e liderará toda a equipe para seu cumprimento.

A interrupção, suspensão e abandono do campo de jogo ou cancelamento da partida são o último recurso possível e somente poderão ocorrer quando houver uma ameaça clara e iminente à segurança dos jogadores, oficiais e/ou público.

Com esse objetivo, seguem abaixo as orientações da Conmebol para a gestão de crise nas situações de atraso, interrupção ou abandono da partida. Todos os encarregados de tomar decisões devem estar envolvidos no processo.

O árbitro deve interromper a partida se o campo de jogo não está em condições mínimas ou se outras questões não estão de acordo com as regras de jogo.

O delegado da partida deve avaliar a situação identificada e consultar o grupo de gestão de crise para definir se é um caso de:

– INTERRUPÇÃO: quando o delegado e os envolvidos no grupo de gestão de crise acreditam que, em um espaço curto de tempo (normalmente até 45 minutos), a situação pode ser controlada e a partida pode ser recomeçada e concluída.

– SUSPENSÃO: quando o delegado e os envolvidos no grupo de gestão de crise acreditam que não será possível, em um curto espaço de tempo, controlar a situação para começar ou recomeçar a partida de forma que seja concluída com segurança.

– ABANDONO: quando uma equipe não se apresenta para uma partida (exceto em casos de força maior), se nega a continuar jogando ou se retira do campo antes da final da partida.

(…)

Recomenda-se avaliar o comportamento das torcidas e a capacidade do estádio durante o processo da avaliação e tomada de decisão para suspender ou interromper uma partida. É fundamental que os representantes da equipe local sejam consultados (e responsáveis pela operação no estádio) e os oficiais de segurança.

Observando o dispositivo acima, supostamente o delegado da partida e o grupo de gestão de crise do jogo no Chile entenderam não ser um caso fora de controle, um "fogaréu". Entretanto, é preciso apurar se o protocolo desta norma foi plenamente cumprido, bem como se realmente a situação e o comportamento da torcida estavam sob controle. Segundo a manifestação de dirigentes da equipe gaúcha na imprensa, o Inter irá fazer uma reclamação formal sobre o caso, pois não havia segurança para continuar a partida com a bola "queimando". A Conmebol avaliará os fatos em um processo disciplinar.

Esperamos que a entidade máxima do futebol sul-americano tenha aprendido com as últimas "fogueiras" e trabalhe com a luz shakespereana, controlando as labaredas da cega paixão ardente do futebol com a razão, ciente de que a realidade social sul-americana atual é um barril de pólvora.

"É fogo"!

"As juras mais fortes consomem-se no fogo da paixão como a mais simples palha."²

1 e 2 – William Shakespeare

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff