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Popularidade do esporte exige cuidados, principalmente com companhias

Andrei Kampff

09/02/2020 08h00

Na Alemanha de Hitler, os jogos olímpicos de 1936 serviriam para "mostrar ao mundo a supremacia da raça ariana". A conquista do Mundial de 1978 pela seleção argentina foi usado como propaganda política para a ditadura que governada o país.

E vamos ficar por aí, já que são muitos os exemplos de governos  que se aproveitaram da popularidade do esporte como instrumento político.

VEJA TAMBÉM:

Mas no futebol, "pegar carona"na popularidade e na rentabilidade do negócio não é exclusividade do poder público.

Vale ler a reflexão que traz Martinho Neves Miranda, procurador de Justiça e colunista do Lei em Campo.

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O novo coronavírus é um agente que ataca o sistema respiratório e se espalhou a partir da região de Wuhan, na China, no final de 2019, tendo sido classificado recentemente pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como assunto de emergência internacional.

Ele pertence à ampla família dos coronavírus, um grupo que reúne agentes infecciosos que provoca infecções respiratórias de vários graus, podendo até mesmo levar à morte.

Outro tipo de "vírus" muito comum e que se alastrou rapidamente em escala mundial é o "carona vírus" que acomete todos aqueles que desejam pegar uma carona no esporte para tentar tirar algum tipo de vantagem indevida.

 Este vírus existe e não é de hoje. Sob o prisma político, pode-se observar que, já na Grécia Antiga, as Cidades-Estado usavam seus campeões olímpicos para se promoverem externamente.

Por sua vez, na Roma Antiga, os detentores do poder não resistiram à tentação de usarem o esporte como forma de se legitimarem junto aos súditos. A construção de coliseus em inúmeras cidades do império romano (com acesso gratuito do povo aos espetáculos) dentro da conhecida estratégia do "pão e circo", é uma prova disso.

O uso político do esporte se manteve ao longo dos séculos, indo encontrar o nazismo, que buscou demonstrar a supremacia da "raça ariana" por intermédio dos jogos olímpicos de 1936.

Da mesma forma, o campeonato mundial de futebol realizado em 1978 na Argentina serviu como instrumento de propaganda política da junta militar que governava aquele país.

Igualmente, durante o período denominado como "guerra fria", Estados Unidos e União Soviética utilizaram-se dos jogos olímpicos, para se revezarem no boicote às edições de 1980 e 1984, realizadas em Moscou e Los Angeles respectivamente, objetivando atender interesses meramente políticos.

 Por outro lado, há quem pegue carona no esporte somente para aparecer. Os casos de violência envolvendo torcedores são um exemplo recorrente. Inúmeras autoridades públicas ganham destaque na mídia em virtude do clima de insegurança que se criou nos estádios.

Ocorre que ninguém resolve o problema, sendo comuns os casos de jogos com torcida única ou portões fechados.

Há igualmente muita gente que deseja pegar carona para servir-se do esporte na condição de dirigente. Sendo a maioria esmagadora das entidades desportivas constituídas na forma de associações sem fins lucrativos e completamente falidas, impressiona a quantidade de pessoas que se candidata a presidir um clube ou uma federação.

Legalmente elas não podem receber qualquer tipo de remuneração e em tese a demanda de trabalho requer dedicação integral ao ofício. É muita filantropia num lugar só…

Ocorre que, para muitos dirigentes, o esporte servirá para alavancar sua carreira política, incrementar a rede de contatos ou engordar sua conta bancária, por meios, digamos assim, pouco ortodoxos…

De igual modo, existe ainda quem queira pegar carona nos contratos dos jogadores de futebol para receberem um percentual de sua remuneração sem contribuírem efetivamente para o incremento de sua carreira, como no caso de alguns intermediários.

Essa figura profissional encontra-se regulada pela FIFA e normatizada em nosso país pela CBF. Entretanto, diante de uma lacuna regulamentar deixada por essas instituições, permite-se que individuos sem a qualificação técnica necessária atuem como agentes de jogadores. 

Nestas condições, o ambiente regulatório existente torna-se propício para espalhar o "carona vírus": atrair quem só queira se aproveitar do salário do atleta sem dar a assessoria de que ele tanto necessita. 

Saiba agora, então, como se dá a transmissão desse vírus, bem como os meios a serem utilizados para evitar a propagação da doença.

Transmissão

O "Carona Vírus" é de muito fácil propagação. Quando alguém vê que outra pessoa foi bem sucedida em se utilizar do esporte para beneficio próprio em detrimento da atividade, ela fica muito mais suscetivel para se deixar contaminar e, por imitação, tentar fazer o mesmo.

Formas de evitar a propagação do "Carona Vírus"

  • Procure impedir que o detentor de cargo público utilize o esporte para fins políticos. Qualquer cidadão pode ajuizar uma ação popular para anular iniciativas impertinentes por desvio de finalidade. Não se esqueça de que o autor é isento de custas judiciais.
  • Se você é torcedor, questione (inclusive judicialmente) as decisões que determinem a realização de jogos com portões fechados para os torcedores. Eles são consumidores por força de lei e gozam de todas as prerrogativas concedidas pelo Código de Defesa do Consumidor.
  • Se você é um profissional de imprensa, procure não dar muita exposição na midia às autoridades que só desejem aparecer.
  • Se você é sócio de alguma agremiação, não apoie ou vote em dirigentes que exerçam funções gratuitas e não consigam comprovar que possuam meios próprios de subsistência.
  • Caso você seja um atleta, pesquise bem sobre a capacidade e idoneidade do intermediário que deseje agenciá-lo. Não assine nada sem antes consultar um advogado.

Diferentemente do novo coronavirus, em que as pessoas portam máscaras para se proteger da contaminação, no "carona virus" os infectados procuram mascarar suas reais intenções a fim de enganar a todos.

Mas também existem semelhanças. Enquanto o novo coronavirus ataca as vias respiratórias das pessoas, podendo, inclusive trazê-las à óbito, o "carona vírus" pode igualmente levar à morte.

À morte do esporte.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff