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A lei do rendimento, nem que seja na agulha

Andrei Kampff

31/07/2019 17h30

Doping, antidoping.

Briga das mais acirradas no esporte, em que a ciência trabalha para o bem e para o mal. Tudo justificado pela busca de rendimento, ou pela paridade de armas.

Não é de hoje que atleta precisa correr, nem que seja na agulha.

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É o que conta Danielle Maiolini, advogada especializada em direito esportivo e colunista do Lei em Campo.


 

A lei do rendimento

Em grande quantidade, o éter era um anestésico. Foi o que se viu na decisão do Campeonato Carioca de 64, quando o massagista do Bangu enrolava o algodão ensopado no pé do Mário Tito pra ele voltar pro campo. Era só despejar bastante. O jogador calçava a meia e a chuteira, e a dor já ia desaparecendo aos pouquinhos, perna acima.

O caso do Mario Tito era de entorse. Mas não tinha outro jeito. O Maracanã lotado, o Bangu precisando, e o Mario Tito no chão. Quando ele caiu, todo mundo olhou pra ver quem é que tinha feito aquilo. Ninguém por perto. Pisou em falso e caiu sozinho, já balançando a mão a procura do atendimento. Quem tá na beira do campo sabe que, nessa hora, pra voltar a jogar, o jogador chora e pede até pelo amor de Deus. Qualquer coisa que faça a dor passar, e coloque ele em pé de novo no gramado. Tem doutor que aceita. Um pouco de éter aqui, uma infiltração ali. Só pra aliviar por enquanto.

Quase aconteceu com o Pelé, na Copa de 66, contra Portugal. Ele mesmo falou depois que implorava pela infiltração. O Brasil perdendo e ele de fora. Não adiantou. O doutor falou que estava fora de cogitação. Diferente do Mário Tito, que, com o efeito do analgésico, voltou pro campo pra defender o Bangu. No fim, o sacrifício custou caro. O Fluminense levou o título por 3 a 1, e a entorse, que era uma contusão simples, desembocou na ruptura de dois ligamentos. O Mário Tito ia ficar muito mais tempo sem jogar. E depois, mesmo voltando, corria o risco de ficar igual ao Tarciso, que, quando jogava no Guarani, esperava a bola subir pro ataque pra ficar agachado na zona de defesa, massageando os meniscos que há muito não sabiam o que era entrar em campo sem dor.

Era difícil encontrar um jogador que ao longo da carreira não tivesse tomado uma injeção pra jogar. Coisa que não acontecia só no Brasil. Em 87, o goleiro alemão Schumacher publicou um livro em que dizia que os jogadores da seleção recebiam uma incontável quantidade de injeções e comprimidos, e doses de uma misteriosa água mineral analgésica que ele cuspia (porque pra dormir preferia cerveja).

Tudo isso "obrigados pela lei do rendimento" que transforma jogadores em "farmácias ambulantes". Como aquelas que patrocinavam os times alemães. Também isso quem tá na beira do campo sabe: o jogador que não se cuida corre o risco de não correr nunca mais. Ainda hoje é assim. Sorte de quem pode decidir.

 

Referências

11 gols de placa: uma seleção de grandes reportagens sobre o nosso futebol/organização Fernando Molica.

GALEANO, Eduardo. Futebol ao Sol e à Sombra.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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