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A polêmica não sai de campo no futebol. Até em tiro de meta

Andrei Kampff

31/07/2019 12h00

O VAR veio para ajudar o árbitro, muito embora ainda esteja atrapalhando.

Agora, imaginar que ele chegaria para acabar com as polêmicas no futebol, também não. A regra do futebol permite interpretação (regra 5); e quando essa interpretação entra em campo, a polêmica joga junto.

Até quando o assunto é tiro de meta!

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É o que conta Renata Ruel, comentarista dos canais ESPN e colunista do Lei em Campo.


A polêmica do tiro de meta e a regra nada clara

No final de semana, no amistoso entre Benfica e Milan, ocorreu um lance pitoresco, inusitado, na cobrança do tiro de meta.


A regra sofreu algumas alterações, dentre elas no tiro de meta: agora a bola, para entrar em jogo, precisa ser chutada e se mover claramente. Na regra antiga, precisaria sair da área penal para entrar em jogo – hoje não precisa mais.

Observa-se no vídeo que o goleiro cumpre corretamente o procedimento de reinício do tiro de meta ao chutar a bola e ela se mover, ou seja, a bola entrou em jogo sem que houvesse nenhuma infração. De forma inusitada, a cobrança é feita colocando a bola no alto, e o zagueiro devolve de cabeça para o goleiro, que pega com as mãos e a repõe em jogo.

Na regra do recuo, diz que o goleiro não pode pegar com as mãos a bola passada deliberadamente com os pés por um companheiro. Mas é permitido se a bola vier de qualquer outra parte do corpo.
Porém, há ainda outra parte da regra que diz que um jogador deve ser advertido por conduta antidesportiva se "utilizar um truque deliberadamente para passar a bola para seu goleiro (inclusive quando executa um tiro livre) com a cabeça, o peito, o joelho, etc., a fim de burlar a regra, independentemente de o goleiro tocar ou não a bola com as mãos".

Analisando esses pontos da regra do jogo, não vejo uma infração no lance do vídeo, pois o procedimento da cobrança do tiro de meta foi correto (não cobrou com cabeça, peito, joelho), o zagueiro devolveu de cabeça uma bola que veio no alto (não usou de truque deliberado, a bola não veio no chão para que ele levantasse com o pé para dar de cabeça ou para que deitasse no chão e desse de cabeça uma bola para ser chutada, por exemplo), isto é, o recuo foi legal.

Até então, não há infração à regra do jogo.

Alguns podem pensar em retardar o reinício de jogo, o que no lance ficou claro que não aconteceu, pois o goleiro, ao cumprir o procedimento do tiro de meta, colocou a bola em jogo. Quando o goleiro pega a bola com as mãos, a regra que consta é dos 6 segundos para mantê-la em sua posse; caso não cumpra, deve ser punido – mas essa é outra regra, e não tem nada a ver com o reinício de jogo do vídeo. Seria um lance seguinte, se ocorresse.

O lance rodou o mundo, e um diretor da IFAB (International Board) escreveu para o ex-árbitro Daniel Destro dizendo que o lance é legal:

"Dear Daniel Destro
Good too hear from you
This is perfectly legal and exactly what was wanted with the law change i.e. speed up the goal kick.
The no handling the deliberate pass Law was designed to prevent time-wasting and the GK's actions in this example are clearly not designed to waste time – quite the opposite as he quickly throws the ball to start an attack.
This action is no different from where a player taking a throw-in is allowed to throw the ball at an opponent and then be able to play it.
The vast majority of football like this situation as it speeds up the game and makes it more attractive
Best wishes
David
David Elleray
Technical Director of The IFAB"

A regra não é clara, e muitas vezes gera interpretações distintas entre as pessoas. Isso pode se refletir no campo, com tomadas de decisões distintas pelos árbitros em lances idênticos.


O mesmo lance aconteceu no Brasil, e a decisão da arbitragem mineira foi contrária à do árbitro do jogo entre Benfica e Milan.

Não se pode criar a própria regra, não se pode deixar os árbitros com "achismos" ou simplesmente com opiniões próprias. Os instrutores devem passar aos árbitros diretrizes baseadas nos conceitos FIFA. Não se pode ter regras próprias no Brasil, outras próprias na Argentina; a regra é única. A informação tem que chegar igual e clara a todas as partes do mundo; não pode ser um "telefone sem fio" ou discordar da FIFA e criar suas regras locais. Muitas vezes os árbitros se sentem perdidos por receberem instruções distintas em um único lance.

Pode-se discordar da regra, mas deve-se cumpri-la. Nada impede de mandar sugestões para que a Board estude, mas, enquanto a regra for aquela, não se pode aplicar de outra forma.

As diretrizes devem ser as mais próximas e uniformes possíveis, para assim as interpretações serem minimizadas e a arbitragem ter nível elevado.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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