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A pior profissão do Brasil: jogador de futebol

Andrei Kampff

21/08/2019 17h00

Esqueça a Neymar, Messi, CR7. A vida do verdadeiro jogador de futebol não tem nada a ver com eles. Ela passa longe doas mansões, dos carrões, de das badalações.

A imensa maioria dos jogadores de futebol no Brasil vive em dificuldade. O futebol nada mais é do que um retrato do Brasil: desigual, com uma imensa maioria ganhando muito pouco. A média salarial de um jogador profissional por aqui é a média do trabalhador brasileiro. Com um agravante: ele não se aposenta!

O trabalho do pedreiro, do jornalista, da garçonete, e da imensa maioria das pessoas, permite um trabalho permanente até a aposentadoria. O jogador não tem um regime especial. Ele para (com 30, 35, 40 anos), e ainda tem uma vida pela frente até conseguir descansar de verdade.

Por isso que repito: jogador de futebol é a pior profissão no Brasil.

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No Brasil, é urgente se discutir essa questão. E existem bons exemplos fora daqui, e boas ideias por aqui. É preciso vontade e coragem para debater esse assunto: um regime de transição para atletas profissionais que param de jogar.

Danielle Maiolini, advogada especializada em direito esportivo e colunista do Lei em Campo, propõe justamente essa reflexão.


 

Futebol agora. E depois?

 

Da mansão em Jacarepaguá, o Marinho lembra do CEP e da fachada. Mas não mora mais lá. Entre o auge dos 30 telefonemas por dia que recebia no Bangu e os 60 e poucos anos já completados, o tempo separou o jogador famoso do homem que foi morar no seu Mercedes, antes de vendê-lo também. Como ele, o Edmilson também relembra os dias de calção e chuteira, enquanto conta a sua história no final da linha 484, em Olaria, onde trabalha como fiscal rodoviário.

A aposentadoria do jogador sempre foi assunto sério. De tão sério, que toda discussão era cuidadosa demais pra ser feita por agora. E isso, faz tempo. Desde a primeira vez em que o jogador ganhou o direito de fazer um contrato de trabalho, a regulação do fim da carreira foi sendo sempre colocada pra depois. Era alguém levantar a bola de colocar aqui e ali alguma coisa que fizesse constar na Lei do Atleta como seria o momento do pendurar das chuteiras, que logo diziam: melhor esperar. Fazer um regime especial de aposentadoria. E, assim, se prometeu, sem se cumprir, uma legislação só pra tratar da previdência das quatro linhas.

Antes da última tentativa de proposta aprovada pela Comissão do Esporte (que também não virou Lei), o Alvito conta que desde os anos 30, quando a profissão de atleta começou a ser tratada assim, quase nada era previsto para ajudar os jogadores que terminavam a carreira. Não havia nenhum sistema de pensões e o problema das contusões assombrava porque no dia seguinte à entrada no departamento médico pra tratamento, o salário parava de cair na conta.

Com o no caso do Marinho, e com menos sorte que o Edmilson, muitos jogadores saíam da cancha pra viver na sarjeta do desemprego, das drogas ou do alcoolismo. Foi assim porque, dizem, até ali só sabiam viver no mundo da bola, e não se prepararam pra viver a vida sem ela. Se não se prepararam ou não os prepararam, é difícil dizer. Pra quem começa aos dez anos de idade dentro do clube, talvez seja um pouco dos dois. Fato é que, por lesão ou por idade, quando a chuteira pendurava, tinham sorte aqueles que continuavam vestindo um escudo no peito porque foram recontratados pra ajudar na administração dos seus ex-clubes.

Depois da Lei Pelé, em 98, a ausência de linhas que falassem da aposentadoria do atleta fez valer a ideia de que, até que isso fosse feito, se aplicariam as regras gerais da aposentadoria pros outros trabalhadores. É o que anda valendo até hoje, diga-se de passagem. Aí, mora uma parte do problema. E não é difícil entender por quê.

Se pra quem trabalha no balcão, no escritório ou na fábrica, são necessárias preciosas décadas de contribuição (que podem chegar, em breve, aos 40 anos), pensar que é possível trabalhar esse tempo como atleta profissional é querer demais. O Zé Roberto, que jogou até 2017, trabalhou como atleta por impressionantes 24 anos. E foi muito.

Outra parte do problema está na lesão. Isso porque, quando ela acontece, não sendo o caso de receber o seguro esportivo obrigatório que a Lei prevê, mas que quase ninguém contrata, o atleta afastado que até então – com sorte – recebia um bom salário, passa a contar com o teto da previdência. Pra muitos, ajuda. Pra outros, falta muito pra fechar a conta.

Não que a grama dos vizinhos seja mais verde. Quem sabe fosse o caso de, nesse quesito, olhar um pouco mais pra cima, já que há muito as ligas americanas criaram um fundo de contribuição obrigatória pra atender às demandas de ex-atletas. A receita vem de parte do lucro auferido pela liga na temporada. Por aqui, a Federação das Associações de Atletas Profissionais tenta algo parecido. A distribuição do que é gerado pelos atletas em atividade, pra amparar quem já parou. Lá na frente, quem contribuiu vai estar seguro também. Numa ideia de que se a liga chegou aonde está, é porque quem hoje não joga mais um dia fez parte dessa história.

 

Referências

ALVITO, Marcos. The ball is round. Capítulo 3: uma vida bem mais esplêndida – o futebol industrial e a Grã-Bretanha da classe trabalhadora, 1888-1914. Ludopedia Website, 3 fev. 2017. Disponível em: <https://goo.gl/vMMRoX>. Acesso em: 28 nov. 2017.

11 gols de placa: uma seleção de grandes reportagens sobre o nosso futebol/organização Fernando Molica.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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