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Choque de cabeça no futebol é sempre um perigo, e ninguém faz nada!

Andrei Kampff

10/09/2019 04h01

A cena foi violenta, e assustou a todos que acompanhavam o jogo entre Goiás e Palmeiras no domingo. O encontro de Tadeu com Zé Rafael gerou um choque de cabeça, e uma queda. O atleta imóvel, os companheiros assustados, o árbitro sem ação. Não existe protocolo no futebol para concussão. E isso é um problema grave.

A concussão é coisa séria. Mesmo assim, as autoridades esportivas, também no Brasil, insistem em não priorizar a saúde do atleta. O espetáculo vem sempre em primeiro lugar.

Na semana passada a gente tratou aqui da questão da NFL. A poderosa liga norte-americana se recusou a dialogar com Bennet Omalu, um médico nigeriano que descobriu uma síndrome causada por repetidos choques de cabeça, comuns ao esporte.

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Depois de uma batalha jurídica gigante, a liga foi condenada a indenizar atletas que foram afetados pela doença em uma ação que chegou a 1 bilhão de dólares.

Foi só depois de uma avalanche de ações que a NFL criou o Protocolo da Concussão, com regras a serem seguidas a fim de proteger a integridade física dos atletas. 

Mas não  é só as NFL, nem no futebol que se joga no Brasil, que a concussão é um problema grave. Todo esporte de contado, com choques de cabeça, pode provocar lesões graves. O rúgbi é um deles. E o Canadá se viu obrigado a criar uma lei para proteger jovens atletas. Tudo por causa de uma tragédia.

Rowan Stringer queria ser enfermeira. Desde pequena gostava de cuidar dos outros, queria salvar vidas. Estudiosa, ganhou uma bolsa de estudos na Universidade de Ottawa e iria começar o curso no segundo semestre de 2013. 

Seria a chance de conciliar na universidade as paixões pela enfermagem e esporte.

Ela morreu sem começar a cursar enfermagem, mas praticando esporte.

Rowan tinha 17 anos, estava na 12ª série e a três meses de entrar na universidade quando sofreu um choque de cabeça durante uma partida de rúgbi pela equipe do ensino médio. Uma investigação concluiu que ela morreu da Síndrome do Segundo Impacto (SIS, em inglês), já que provavelmente havia sofrido duas outras concussões em dois jogos durante os cinco dias anteriores à partida em que sofreu a lesão fatal.

A causa do inchaço maciço do cérebro era inicialmente desconhecida. Um inquérito revelou mensagens de texto de Rowan para amigos descrevendo sintomas de duas lesões cerebrais em jogos anteriores de rúgbi, provavelmente concussões, cerca de cinco dias antes do golpe fatal, confirmando o diagnóstico de SIS.

A morte desencadeou uma série de discussões no país sobre os riscos dos esportes de contato para os jovens. O Canadá não tinha protocolos eficientes de concussão esportiva até aquele momento.

Segundo especialistas, o cérebro dos jovens é mais sensível a concussões. 

Eram poucas as regras que regiam os esportes juvenis no Canadá. Isso apesar do fato de que, em 2012, a Sociedade Pediátrica Canadense pediu um estatuto exigindo que todas as associações esportivas regionais e conselhos escolares desenvolvessem uma política por escrito sobre reconhecimento e gerenciamento de concussão. Concussões, segundo a sociedade, respondiam por 9% a 12% de todos os ferimentos esportivos no ensino médio. 

A morte de Rowan, a falta de cuidados com a concussão e os resultados da investigação estimularam sua família a fazer campanha pela "Lei de Rowan" em Ontário.

A opinião pública comprou a ideia, o governo e a sociedade passaram a discutir o assunto, e lei foi aprovada. Foi a primeira desse tipo no Canadá, e entrou em vigor em 9 de setembro de 2016.

A morte da jovem desencadeou uma série de medidas de segurança 

Ficou definido:

• Autorização médica de todos os atletas atingidos antes de voltarem a jogar.
• Educação obrigatória de concussão para todos os jovens atletas, pais e treinadores.
• Remoção imediata de um atleta jovem do jogo se houver suspeita de uma concussão.
• Adesão rigorosa aos protocolos de retorno ao aprendizado e retorno ao jogo para atletas jovens com concussões.

Além do Canadá, todos os 50 estados norte-americanos têm leis semelhantes ou protocolos esportivos que protegem a saúde dos jovens atletas.

Concussões entre atletas profissionais dominaram as manchetes esportivas nos últimos anos. Na NFL, na NHL, no futebol.

As duas primeiras ligas adotaram protocolos de concussão nos últimos anos.

A NHL introduziu novas regras em 2011 que exigem que os jogadores deixem o banco e se dirijam a uma sala silenciosa para serem avaliados por um médico após receber um golpe na cabeça. A NFL deu um passo adiante em 2013, exigindo que um jogador com uma suposta concussão recebesse autorização do médico da equipe e de um neurologista independente antes de voltar a jogar. E no futebol? 

A FIFA ainda não criou um protocolo efetivo que garanta mais segurança ao atleta. 

Depois dos casos de choque na Copa de 2014, a FIFA passou orientações sobre o que fazer em casos de choques de cabeça. É uma diretriz, não é um protocolo obrigatório como nos esportes americanos.

Ela diz que o médico é que vai determinar a continuidade do atleta, mas do lado de fora do campo. São três minutos de atendimento dentro do gramado, e o jogador precisa ser levado para fora. O prejuízo técnico – jogar com um menos – também acelera atendimento e não ajuda numa avaliação mais correta.

A conclusão é de que o determinação do futebol ainda deixa jogadores em risco, e segundo especialistas ele precisa ser aprimorado.

Nos EUA há um debate sobre a proibição do Tacle em crianças durante os treinamentos. No futebol, menores de 11 anos não podem cabecear. No Brasil não se faz nada, nem para proteger nossas crianças, nem como forma de cuidar melhor de nossos atletas.

E vale repetir uma pergunta: até quando?

As regras do esporte mudam quando são provocadas. 

A provocação pode aparecer como forma de aprimorar o jogo, de torná-lo mais atrativo; as novas tecnologias também têm trazido novidades ao esporte; mas ele também pode mudar em função de tragédias que poderiam ser evitadas. É fundamental entender isso no Direito Esportivo.

Rowan Stringer não conseguiu nem sequer começar o curso de enfermagem. Mas, por causa dela, não só o rúgbi que ela amava, como também todos os esportes no Canadá, passaram a ser mais seguros para os jovens atletas. Rowan está ajudando a salvar vidas.

E ela também serve de exemplo para o nosso futebol.

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Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

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