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Como está clima no Chile faltando 20 dias para decisão Flamengo e River?

Andrei Kampff

03/11/2019 04h00

Chile segue sob tensão. Conmebol está apreensiva, e torcedores, assustados.

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Conmebol e governo torciam para que feriado prolongado no Chile apagasse incêndios e esfriasse manifestantes. Não é o que tem acontecido, a situação segue grave por lá.

Veja o relato de Cauan Biscaia, jornalista brasileiro que mora no Chile ha oito anos, e tem acompanhado a situação para o Lei em Campo.

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Os protestos por demandas sociais no Chile completaram duas semanas nesta última sexta-feira sem afrouxar, e mesmo com o feriado extenso de finados que juntou quatro dias de folga para a maioria dos trabalhadores, grande parte dos chilenos abdicaram das estradas para manter vigente as manifestações que se espalham pelas cidades mais importante do país. Na sexta- feira a convocatória foi ousada: "La marcha más grande de Chile – Parte 2", e apesar da resposta não ter sido milionária como a uma semana atrás, uma enorme concentração de 100 mil pessoas tomou conta da Plaza Baquedano, ponto de referência da capital para alçar vozes em momentos de extravasamento social. No sábado, mais manifestações tendo como lema  "Renúncia Piñera", uma das petições mais fortes do movimento, juntamente com a assembléia por uma nova constituição. 

Desde 1989, quando o Chile se libertava do regime militar de Pinochet, constituição do país sofreu até hoje 41 reformas, com um total de 244 artigos modificados. O último plebiscito constitucional de 89 aprovou alterações importantes na carta magna chilena, entre as quais, se destaca um ponto fundamental que obstaculiza as inciativas dos parlamentários de oposição: para aprovar uma nova assembleia constituinte nos dias de hoje, a contraparte do governo precisaria de um quórum mínimo de dois-terços do senado, tarefa difícil considerando que deste grupo, pelo menos cinco devem sair dos partidos da situação. 

A oposição ao governo Piñera apresentou recentemente um projeto para diminuir esse quórum necessário para a assembléia constituinte a três-quintos, mesmo assim a realidade mostra que essa petição dos protestos continuará sendo uma utopia já que os partidos que apóiam o governo não cogitam fazer discutir uma nova constituição e preferem priorizar a nova "Agenda Social"proposta pelo presidente com 15 medidas propostas pelo presidente para responder às demandas do povo.

O pacote de medidas que criou Piñera não foi suficiente para acalmar os protestos, e para conseguir implementar todas as mudanças propostas será necessário destinar uma grande parte da verba pública para os subsídios prometidos, o que pode acarretar em cortes de verba para setores menos importantes segundo as prioridades do governo, e entre eles o Ministério do Esporte figura como uma possível vítima deste contingenciamento.

"Entendo o que está sucedendo no Chile e sei que são necessários muitos milhões de dólares para para cumprir as demandas que exigem as pessoas e para a reconstrução do Metrô. Espero que não saia do esporte este dinheiro", declarou o presidente do Comitê Olímpico do Chile, Miguel Ángel Mujica. Vale lembrar que Santiago será sede dos próximo Jogos Pan-Americanos de 2023, e muitas sementes que se estão plantando hoje em dia podem ter consequências sérias na colheitas dos quatro anos futuros.

Sob este contexto ainda duvidoso e conturbado, a final da Copa Libertadores se mantém confirmada para Santiago. Na quarta-feira passada a ministra do esporte, Cecilia Pérez, ratificou o compromisso do governo chileno para garantir as condições necessárias para a realização do evento no próximo dia 23 de novembro. Torcedores de Flamengo e River Plate já estão se se mexendo desde quarta-feira para conseguir garantir presença no Estádio Nacional, porém, os 25.000 ingressos disponíveis para brasileiros e argentinos demoraram a ser vendidos, o que indica uma preocupação também por parte da torcida. 

Governo e Conmebol torciam para que o feriado prolongado que começou na quinta-feria esfriasse as manifestações. Mas elas continuaram em todos os dias.  Em todas elas, o mesmo pedido de renúncia de Sebastián Piñera A destituição do mandatário não é visto como algo tão simples, já que pelo mesmo motivo pelo qual a assembleia constituinte se inviabiliza, é necessário uma aprovação de 66% dos deputados e senadores para iniciar um processo de impeachment. Parlamentários da oposição já apresentaram uma denúncia contra o presidente, mas esta iniciativa não deve ter repercussões significativas dentro do Palácio La Moneda. 

Por enquanto as repercussões estão nas ruas, no centro de Santiago principalmente, onde é possível ver uma cidade descontinuada e desordenada. Ainda há muitos semáforos sem funcionar, escombros nas ruas, supermercados fechados, farmácias depredadas e um sistema de transporte público lento e limitado. O país tenta se reconstruir, mas o ânimo do povo continua deteriorado, e a tendência é que esta onda de protestos continue por muitos dias mais. Quando a segunda-feira chegar, será possível estimar o vetor de crescimento da revolta.

 

Por Cauan Biscaia

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff