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Internacional, Sport e quem mais? Transformar gestão é processo dolorido

Andrei Kampff

12/11/2019 12h00

É o senso comum: a administração esportiva traz uma ideia de ineficiência, falta de transparência e de ética de nossos gestores. E pode ser pior, em muitos casos ela é associada a perpetuação de dirigentes corruptos, e de remuneração ilícita. Um imaginário coletivo que vem naturalmente de um histórico de problemas na administração de clubes e entidades esportivas.

Escândalos de corrupção, apadrinhamento, falta de profissionais qualificados. E, além de tudo isso, um total descomprometimento com a prestação de contas para o conselho, para os sócios e, nos casos dos clubes, para o próprio torcedor.

O caso do Cruzeiro, ou a histórica desorganização administrativa de Vasco, Botafogo ou Fluminense. São só alguns exemplos de como o futebol em grandes clubes brasileiros ainda carece de uma gestão séria e profissional. Mas quero falar de outros dois clubes, que passaram recentemente por escândalos gigantescos, mas aproveitaram o tsunami para apresentar algo novo, mostrando como a mudança de comportamento tem de partir da própria instituição.  Vamos falar de Internacional e Sport.

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Os escândalos de Internacional e Sport

Gestões passadas irresponsáveis comprometeram o caixa e a imagem de instituições gigantes, com um patrimônio popular absurdo. E, para complicar ainda mais, com fortes indícios de desvio de dinheiro.

O Internacional baniu o ex-presidente Vitório Piffero e outros três ex-dirigentes por gestão temerária. O caso está com o Ministério Público, que classificou a gestão anterior como "organização criminosa".

O Sport, cujo balanço negativo da gestão passada surpreendeu até quem vinha monitorando as contas do clube, deve seguir o mesmo caminho, levando a apuração dos fatos às últimas consequências. De maneira elogiável, a nova direção do clube pernambucano lançou um canal da transparência. Um bom começo, uma esperança.

Mas, então, por que os dois clubes seriam exemplos de esperança? Simples, porque as novas gestões contrariaram a lógica política dos clubes brasileiros de esconder os erros e desvios, e abriram as contas, investigaram, apuraram, julgaram e, no caso do Internacional, condenaram pessoas do próprio clube.

A punição possível

O caso do Internacional mostra que,  apesar dos políticos insistirem em não voltar a discutir o PL 68/17 que está no Senado e tipifica o crime de corrupção privada no país, existem caminhos legais para investigar, julgar e condenar administradores que roubam instituições esportivas.

O caso talvez seja o mais profundo de uma investigação pública em um clube do futebol brasileiro. As denúncias contra ex-dirigentes do Internacional, foram oferecidas pelo Ministério Público.

Uma delas fala em organização criminosa que "agia contra o patrimônio do clube gaúcho". O documento contém mais de 200 fatos e casos de estelionato, lavagem de dinheiro e falsidade de documentos, listados um a um. As investigações do MP revelaram ainda que Vitorio Piffero, ex-presidente do Inter, Pedro Affatato, Emídio Ferreira e Carlos Eduardo Marques, ex-dirigentes, além de Ricardo Simões e Adão de Fraga Feijó, empresários da construção civil e contabilidade, teriam lucrado R$ 12,8 milhões.

Isso já se leu, mas o ponto importante que quero destacar aqui é: foi a direção colorada que começou o processo de investigação, criando uma auditoria do Conselho Deliberativo, que analisou balancetes, notas, julgou, e condenou a antiga direção. Depois disso, entregou os dados ao MP gaúcho, fazendo com que a Operação Rebote se tornasse tão relevante.

A direção contrariou a lógica do comportamento nas entidades esportivas. A regra sempre foi que a nova gestão nunca se interessou em investigar verdadeiramente a anterior, por medo de quando deixasse o poder, ela fosse a investigada.

Mas pode o poder público investigar uma entidade privada? Isso não fere o princípio da autonomia esportiva? Crimes contra o patrimônio estão tipificados no nosso Código Penal, e tratam de proteger vítimas e perdas privadas. Ou seja, incorre em atos criminosos (tipificados),  deve ser investigado e punido. Isso faz com que empresas e instituições – como o Internacional – possam ser investigadas.

O movimento esportivo também passou a se posicionar mais recentemente condenando práticas de gestão temerária. Tanto que as investigações e apontamentos do MP serão compartilhados com a Fifa e a CBF, e os denunciados devem ser submetidos a julgamento ético e disciplinar por estas entidades.

É hora de cobrar mudanças 

 

O Sport deve fazer o mesmo. Abrir a caixa preta, analisar, julgar e punir os desvios. Claro que o Cruzeiro e outros clubes também.

O caminho é dolorido, mas necessário.

Passou da hora dos clubes se protegerem internamente, criando políticas de governança e Compliance que dêem transparência a gestão, reforce compromisso pela ética e proteja o clube de futuras administrações desastradas.

Afinal, o esporte que mobiliza paixões também alimenta ambição política, interesses obscuros e corrupção. Portanto, todo gesto que demonstre transparência é mais do que um compromisso legal, é um dever moral de todo dirigente responsável.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff