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Flamengo insiste em não ouvir própria torcida. Tragédia vai além do direito

Andrei Kampff

16/02/2020 09h45

Todos, mais cedo ou mais tarde, chegarão a conclusão de que a vida é constituída muito menos por formalismos do que por sentimentos, e que esses sempre precisam ser levados em consideração.

A atual diretoria do Flamengo ainda não se deu conta disso, apesar das repetidas lembranças da sociedade e, em especial, de muitos torcedores e dirigentes do próprio clube carioca.

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Repito o que penso: a discussão aqui não é jurídica. É sobre escolha. É sobre postura. É sobre compromisso.

Para mim, é claro, e óbvio: não se paga a ninguém pela morte de um filho. A perda é incalculável. O direito se esforça a fim de fazer uma matemática para tentar colocar um pouco de lógica na questão, em um exercício de imaginação de um ganho futuro. A ideia é, pelo menos, aliviar o prejuízo financeiro da perda.

O Flamengo insiste em negociar com algo que não se negocia: o valor de uma perda irreparável.

O clube não soube, desde o fatídico 8 de fevereiro, lidar com a tragédia. E o dinheiro funciona não para pagar uma dívida que não tem preço, mas para mostrar o sentimento, a dor compartida, assumir o erro, pedir desculpas, se posicionar de maneira honesta diante do fato.

Calcular nessa hora não é tratar o caso como ele merece. E isso fica pior quando o clube mostra que dinheiro não é um limitador para essa negociação.

Vale ler a reflexão que traz Martinho Neves Miranda, procurador de Justiça e colunista do Lei em Campo.

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"A rainha" (2006) é um filme que mostra a semana compreendida entre o falecimento da Princesa Diana e o seu sepultamento. Neste período, ele foca na repercussão de sua morte e no embate entre o primeiro ministro britânico Tony Blair e a rainha Elizabeth II sobre o comportamento a ser adotado pela realeza diante dessa tragédia.

A rainha soube da morte quando estava no Castelo de Balmoral, no norte da Escócia, onde passava férias com toda a família, incluindo os filhos de Diana. Sua decisão inicial de não retornar a Londres e não fazer qualquer pronunciamento público causaram revolta no povo britânico, que exigia que a realeza se manifestasse.

A indiferença de Elizabeth II diante da morte de Lady Di guarda semelhanças com a frieza com que a diretoria do Flamengo vem tratando as famílias dos meninos mortos no seu centro de treinamento.

Além da questão das indenizações, os parentes reclamam da falta de atenção, de cuidado e do descaso que o clube teve com eles. Muitos disseram que jamais receberam a visita de dirigentes. Sequer um telefonema de condolências… Outros lamentam que nem mesmo foram comunicados pela agremiação da morte de seus filhos.

Elas não querem apenas uma indenização, mas anseiam também e particularmente por carinho, afeto, ou quiçá somente um abraço apertado…enfim, reclamam mesmo é da falta de solidariedade dos representantes do clube.

A atitude exigível da Diretoria não é apenas um dever moral, mas um compromisso jurídico. Com efeito, espelhando os fundamentos da revolução francesa erigida sob a tríade "liberdade, igualdade e fraternidade", nossa Constituição no art. 3º, inciso I, afirma que constitui um dos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil o de "construir uma sociedade livre, justa e solidária".

É de se ressaltar que o dever de solidariedade do Flamengo é muito maior do que era devido pela Rainha, pois ao contrário de sua alteza, que não teve qualquer participação na morte de Diana, o rubro-negro era o garantidor da vida daqueles que dormiam sob suas asas em seu ninho.

Além disso, o clube não estava abrigando os garotos como um mero ato de filantropia, mas sobretudo de investimento. É sabido que os talentos revelados podem render um bom dinheiro para o clube formador em negociações futuras, conforme consta nos regulamentos da FIFA e na própria Lei Pelé.

Por outro lado, sabe-se que os ocupantes de cargos de relevância pública precisam adotar certos comportamentos que são esperados pela sociedade, ainda que possuam natureza meramente simbólica. Como já diz o provérbio decorrente da frase do imperador romano Júlio César  "À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta".

Os atos exteriores fazem parecer que a Diretoria não se importou com a tragédia. Sua ausência nas audiências públicas, CPIs e etc chama a atenção e passa para todos a sensação de insensibilidade com o ocorrido.

A propósito, inúmeras ações muito simples poderiam ter sido implementadas e em que pese a singelidade, serviriam para demonstrar o zelo e a preocupação com as familias.  

Assim, por exemplo, o clube poderia ter tentado empregar os parentes das vitimas, destinar a eles a renda dos jogos, providenciar atendimento psicológico, dentre outros. Entretanto, o Flamengo parece tratá-los como credores rasos e o incêndio como um fato estritamente jurídico.

A justificativa para o comportamento omisso da rainha também residia em questões meramente formais. Como Diana era divorciada do príncipe Charles e não pertencia mais à família real, Elizabeth II considerava que seu sepultamento não exigiria nem as honras da realeza, nem manifestação pública de pesar pela sua passagem.

Só que tanto o Flamengo quanto a rainha esqueceram que a vida é constituída muito menos por formalismos do que por sentimentos, os quais precisam ser respeitados e levados em consideração.

Tony Blair percebera isso rapidamente, ao batizar Diana no dia seguinte à sua morte como a "princesa do povo". Ela não precisava mesmo de qualquer status oficial para ser venerada. Sua postura em relação ao povo, em especial com os mais humildes era o suficiente.

Por falar em povo, é curioso como um clube que se diz "do povo" aja tão friamente com uma parte de sua própria gente, isolando-se dos acontecimentos, tendo se encastelando na sede da Gávea, a exemplo do que a rainha fizera no Castelo de Balmoral.

Vale ressaltar porém, que a pressão popular fez com que ela mudasse seu proceder. Na véspera do sepultamento, homenageou Diana em mensagem transmitida ao vivo pela televisão (a segunda em 45 anos de reinado), além de se inclinar publicamente diante do caixão, num funeral que acabou sendo realizado com honras muito especiais.

A atitude da rainha serve de exemplo a ser copiado para quem teima em não se curvar diante das evidências. Aliás, ela não tardou muito tempo para mudar sua postura.

Levou menos de uma semana.

Ainda se espera que a Diretoria do Flamengo faça o mesmo.

Há mais de um ano.

 

 

 

 

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff