Topo

Histórico

Categorias

Manipulação de resultados no futebol: em 1942 legislação já previa punição

Andrei Kampff

18/11/2019 14h00

ãoA graça do esporte está na incerteza do resultado. Se todos soubessem de véspera qual seria o placar de um jogo, o esporte perderia força, e a paixão encolheria.

Por isso vários dos princípios do direito esportivo visam garantir essa imprevisibilidade, como a integridade esportiva, o jogo limpo, e a paridade de armas, que é dar condições iguais aos competidores.

Daí porque é fundamental, entre outras coisas, combater a manipulação de resultado.

VEJA TAMBÉM: 

Normalmente essa fraude ocorre por interesse financeiro, mas ela também agride a natureza do esporte. E não é um problema recente no esporte, é histórico.

É o que mostra o trabalho de pesquisa do professor Wladimyr Camargos, advogado e colunista do Lei em Campo.

Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo 


O "CBJD" de 1942 já trazia punições contra a manipulação de resultados

 

A Resolução do Conselho Nacional de Desportos (CND), de 4/11/1942, que instituiu os tribunais de penas junto a cada uma das federações estaduais de futebol dispunha acerca de um tema bastante caro nos dias de hoje: a manipulação de resultados de partidas e competições.

O texto original assim regia o assunto:

33.___________

____________________

  1. d) será motivo de eliminação do atleta a participação ou cumplicidade em tentativa de suborno, destinado a causar, promover ou facilitar a derrota de um quadro, bem come o fato de ter conhecimento da tentativa e não denunciá-la imediatamente,

____________________

 

  1. Estará sujeito a grave punição aquele que, direta ou indiretamente, induzir ou tentar induzir o atleta a proceder, em campo, de maneira desvantajosa para o quadro a que pertence, ou a algum árbitro ou linesman, com o Propósito de persuadi-lo ao desempenho da função, por forma que assegure ou facilite a vitória de uma determinada associação. Apurada a infração, o responsável ficará inhabilitado [sic] para ocupar cargo ou função em entidade desportiva e para ser sócio, atleta, dirigente, treinador, massagista ou empregado a serviço dos desportos. Se do fato ou fatos compreendidos neste item resultar a responsabilidade de alguma entidade desportiva, será esta suspensa e, no caso de reincidência, ser-lhe-á cassada pelo C. N. D. o direito de funcionamento.

 

Os dois dispositivos transcritos, demonstram, portanto, que a proteção do esporte de rendimento, no caso o futebol, contra atitudes que viessem a macular a igualdade entre os competidores, já era algo bastante presente no início dos anos 1940. Isso fica patente quando da alínea 'd' do item 33 da norma se vê que a punição ao atleta infrator era única e capital: a eliminação. Até mesmo a cumplicidade ou a omissão em denunciar a tentativa de aliciamento era motivo de aplicação da sanção capital.

A manipulação de resultados ou, como no inglês, o match fixing, também punia aquele que não tinha uma função atlética em campo, mas poderia influenciar no comportamento do jogador, como dispunha o item 33 também exposto acima.

Da mesma forma, a punição prevista era capital: inabilitação para ser dirigente ou associado a entidade esportiva e, em se tratando de associação, sua suspensão ou cassação de registro pelo governo na reincidência.

O mesmo ocorreria se a manipulação visasse a atividade da arbitragem.

Ainda que o desenvolvimento do Direito Esportivo estivesse nos seus primórdios no Brasil àquela época, três são os princípios que vemos ser protegidos pelas tipificações concernentes à manipulação de resultados:

  1. integridade esportiva;
  2. jogo limpo (fair play);
  3. igualdade esportiva (paridade de armas).

 

Estes seriam hoje os mesmos princípios que se invocaria no caso de combate à dopagem, de modo que ao atleta e demais esportistas é fundamental garantir a integridade da partida, prova ou competição não se fazendo valer de substâncias proibidas, agindo assim com fair play, de modo a sempre resguardar a igualdade de condições entre os competidores.

A manipulação de resultados, seja por meio de utilização de substâncias que garantam vantagem física ou mental seja com o oferecimento de vantagens indevidas para o falseamento do resultado, oferecia e ainda oferece risco enorme ao ambiente esportivo.

É muito interessante, assim, que neste trabalho de "arqueologia jurídica" eu tenha acabado por esbarrar neste importante achado, trazendo à luz que o combate à manipulação de resultados já rendia uma tipificação especial no primeiro "CBJD" de nossa história.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff