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Mesma imagem, e duas orientações diferentes para os árbitros. A bola na mão

Andrei Kampff

20/11/2019 12h00

Anda difícil elogiar a arbitragem brasileira. Principalmente quando ela usa o VAR como escudo, para fugir da responsabilidade que tem como juiz do espetáculo.

Mas é preciso colocar atenuantes nessa história. O amadorismo da profissão (um assunto que a gente vai voltar a escrever por aqui), a falta de treinamento com tempo adequado para usar a ajuda tecnológica, e o "auxilio"de árbitros que seguem protocolos que sequer são claros.

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O lance do pênalti marcado para o Flamengo é um exemplo. Pelo material da Fifa a orientação é não marcar a penalidade quando a bola bate no braço que serve de apoio ao corpo que vai para o chão. Já a orientação da Conmebol e da CBF mostra a mesma imagem, e avisa que se o braço gerar bloqueio tem que marcar a infração?

E agora?

Com a palavra a especialista Renata Ruel, comentarista dos canais ESPN e colunista do Lei em Campo.

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Será que existe a brincadeira do "telefone sem fio" na arbitragem?

O crucificado é o árbitro em uma tomada equivocada de decisão. Mas já pensou nas instruções que ele recebe?

Se na regra consta que cabem interpretações aos árbitros, elas também estão presentes nos instrutores que passam as diretrizes.

Muitas vezes em um lance de pênalti, por exemplo, amigos têm visões distintas e discordam entre si, mesmo torcendo para a mesma equipe e a penalidade sendo a favor do seu time.

E não há como negar que as interpretações são muitas vezes divergentes entre os que ensinam e instruem os árbitros que atuam em campo ou no VAR.

Neste final de semana tivemos um pênalti marcado a favor do Flamengo no jogo contra o Grêmio onde o material recente da FIFA, da Copa do Mundo da França, mostra que não é para ser marcada a infração quando a bola tocar no braço de apoio do jogador que está entre o corpo e o chão, o braço não precisa estar apoiado no chão.

Foto 1 – Pênalti para o Flamengo contra o Grêmio

Porém, as instruções que os árbitros têm recebido da CONMEBOL e no Brasil é de que mesmo sendo igual a imagem do material FIFA, se isso criar um bloqueio o árbitro deverá assinalar falta/pênalti.

Tive a oportunidade de participar durante a Copa do Mundo Feminina de um curso FIFA na França e as instruções lá foram exatamente de que braço de apoio não é infração e ponto.

Foto 2 – Regra e material da FIFA

Será que a brincadeira do telefone sem fio está na arbitragem? A informação começa na FIFA e até chegar no árbitro vai sendo adaptada e mudada?

É claro que o árbitro precisa saber a diferença de uma defesa de vôlei com sequência do braço de apoio e somente um braço de apoio, conhecer a biomecânica é fundamental para se tomar a decisão, não se pode robotizar a arbitragem.

Por isso gosto de usar a frase: "Quem entende só de regra, nem de regra entende, precisa entender de arbitragem. Quem só de arbitragem entende, nem de arbitragem entende, precisa entender de futebol. Quem só de futebol entende, nem de futebol entende, precisa entender o contexto que envolve tudo isso."

Isso não é brigar com a imagem e o escrito na regra do jogo? Se em uma imagem clara da regra as diretrizes dos instrutores para os árbitros são contrárias, imagina onde realmente cabem interpretações.

Acontece um lance polêmico, um árbitro tira dúvida com um instrutor e outro árbitro com outro instrutor e recebem opiniões distintas, mesmo  baseadas na regra do jogo. O lance acontece em outro jogo e cada árbitro tomará a sua decisão de acordo com a instrução recebida, mas elas foram distintas e as decisões em campo também. E sim, acontece, eu vivenciei muito isso na arbitragem.

No pênalti para o Flamengo ou contra o Brasil na final da Copa América são marcados através de instruções distintas das imagens e textos que constam na regra, em lances interpretativos a confusão será ainda maior e esses pontos podem ser um dos motivos em ocorrer tantas polêmicas, inclusive com o VAR.

Os instrutores são fundamentais para que a arbitragem tenha sucesso ou não, se não houver pessoas qualificadas no comando e na instrução, dificilmente se terá em campo ou no VAR árbitros de alto nível.

É preciso olhar a arbitragem além das quatro linhas.

Sobre o autor

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós-graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Iberoamericano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro “#Prass38”.

Sobre o blog

Não existe esporte sem regras. Entendê-las é fundamental para quem vive da prática esportiva, como também para quem comenta ou se encanta com ela. De uma maneira leve, sem perder o conteúdo indispensável, Andrei Kampff irá trazer neste espaço a palavra de especialistas sobre temas relevantes em que direito e esporte tabelam juntos.

Lei em Campo, por Andrei Kampff